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Anemia: por que investigar a causa importa mais do que corrigir o número?

Por Laura Vassalli

Atualizado em 03/10/2026

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Anemia é, provavelmente, o achado mais comum em qualquer hemograma — e também um dos mais mal compreendidos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 30% das mulheres entre 15 e 49 anos no mundo têm anemia, número que sobe para 37% entre gestantes e chega a 40% em crianças de 6 a 59 meses. No consultório, o que vejo com frequência não é falta de informação sobre anemia — é excesso de informação simplificada demais. "Estou com anemia, vou tomar ferro" é a frase que mais ouço, e é também onde a maior parte dos erros de tratamento começa.

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O que é anemia, afinal

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Anemia não é uma doença — é um achado laboratorial, definido pela redução da hemoglobina abaixo dos valores de referência (segundo a OMS, abaixo de 13 g/dL em homens e 12 g/dL em mulheres). A hemoglobina é a molécula que carrega oxigênio dentro dos glóbulos vermelhos; quando ela está baixa, o corpo inteiro recebe menos oxigênio do que precisa — daí o cansaço, a falta de ar ao esforço, a dificuldade de concentração.Mas esse número baixo pode vir de causas completamente diferentes entre si, com tratamentos completamente diferentes. É por isso que "estou com anemia" nunca é, sozinho, informação suficiente — nem para o paciente, nem para quem trata.

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As três formas pelas quais uma anemia acontece​

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Toda anemia se encaixa, no fundo, em um destes três mecanismos:Perda de sangue — sangramento menstrual intenso, sangramento digestivo (às vezes silencioso), cirurgias, doações frequentes.Produção insuficiente — falta de matéria-prima (ferro, vitamina B12, ácido fólico) ou um problema na própria medula óssea, que é onde o sangue é fabricado.Destruição aumentada — quando os glóbulos vermelhos são destruídos antes do tempo (normalmente eles vivem cerca de 100 dias), por causas hereditárias ou adquiridas.Cada um desses três caminhos abre um leque de causas diferentes — e é aí que entram os tipos específicos de anemia.

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Quando uma anemia merece uma investigação mais detalhada?

 

Toda anemia merece ter sua causa compreendida, mas algumas situações tornam essa investigação especialmente importante: quando ela persiste ou volta após o tratamento; quando não há uma explicação evidente; quando o ferro está normal; quando existem alterações também nos leucócitos ou nas plaquetas; quando há sinais de destruição aumentada das hemácias; ou quando o padrão do hemograma sugere uma condição hereditária ou uma alteração da produção do sangue.

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O hemograma ajuda a apontar o caminho

 

O valor da hemoglobina mostra a presença e a intensidade da anemia, mas não costuma explicar sua causa sozinho. Outros dados do hemograma ajudam a direcionar a investigação:

VCM — mostra o tamanho médio das hemácias. Anemias com VCM baixo podem levantar hipóteses diferentes daquelas com VCM elevado.

Reticulócitos — ajudam a avaliar se a medula óssea está respondendo adequadamente à anemia.

RDW — indica o grau de variação no tamanho das hemácias e pode ajudar na interpretação de alguns padrões.

A partir desses dados e da história clínica, podem ser necessários exames como ferritina e saturação de transferrina, vitamina B12 e folato, marcadores de hemólise ou outros testes direcionados.

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Não existe um “pacote de exames para anemia” que sirva igualmente para todos: a investigação depende do padrão encontrado e do contexto de cada paciente.

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Os principais tipos de anemia

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Anemia ferropriva

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A anemia ferropriva ocorre quando a falta de ferro compromete a produção de hemoglobina. Além de confirmar a deficiência, é importante investigar sua causa — como perdas menstruais, sangramentos digestivos, alterações na alimentação ou dificuldades de absorção.

Saiba mais sobre anemia ferropriva

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Deficiência de ferro sem anemia

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É possível ter estoques de ferro reduzidos mesmo quando a hemoglobina ainda está normal. Em algumas pessoas, a deficiência de ferro pode estar associada a sintomas como cansaço, queda de cabelo, redução da capacidade física ou síndrome das pernas inquietas, além de exigir investigação da causa da perda ou da baixa disponibilidade de ferro.​

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Anemia por deficiência de vitamina B12

 

A deficiência de vitamina B12 pode prejudicar a produção das células do sangue e provocar anemia, geralmente com aumento do tamanho das hemácias. Em alguns casos também pode causar alterações neurológicas, como formigamentos, alterações de sensibilidade ou dificuldade de equilíbrio, tornando importante identificar e tratar sua causa.

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Anemia por deficiência de ácido fólico

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O folato é necessário para a produção adequada das células sanguíneas. Sua deficiência pode causar anemia macrocítica e estar relacionada a alimentação inadequada, aumento das necessidades do organismo, algumas doenças ou determinados medicamentos.

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Anemias hemolíticas

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Nas anemias hemolíticas, as hemácias são destruídas mais rapidamente do que o organismo consegue repô-las. Existem causas hereditárias e adquiridas, e a investigação costuma envolver a análise de reticulócitos, bilirrubinas, LDH, haptoglobina e outros exames direcionados à possível causa da hemólise.

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Talassemias

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As talassemias são condições hereditárias que alteram a produção das cadeias de hemoglobina. Algumas pessoas apresentam apenas alterações discretas no hemograma, enquanto formas mais importantes podem provocar anemia significativa e exigir acompanhamento especializado.

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Anemia falciforme

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A anemia falciforme é uma doença hereditária da hemoglobina em que as hemácias podem adquirir formato anormal e apresentar maior tendência à destruição e à obstrução de pequenos vasos sanguíneos. Trata-se de uma condição sistêmica que exige acompanhamento hematológico contínuo e individualizado.

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Anemia associada a doenças crônicas e inflamatórias

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Doenças inflamatórias, infecciosas, autoimunes, renais e algumas neoplasias podem interferir na produção das hemácias e na utilização do ferro pelo organismo. Nesses casos, os exames de ferro podem ter um padrão diferente daquele observado na deficiência de ferro verdadeira, e o tratamento depende principalmente da condição de base.

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​Por que "tomar ferro" nem sempre é a resposta correta?

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Repor ferro numa anemia que não é por falta de ferro não resolve — e pode até atrasar o diagnóstico de algo mais sério por trás (uma perda de sangue digestiva não identificada, por exemplo). Toda anemia deveria ser investigada antes de tratada, não só corrigida no número. Essa é a diferença entre tratar um exame e cuidar de um paciente.

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Toda anemia deve ser investigada para o melhor tratamento

 

Sobre a Dra. Laura Vassalli - Hematologista em São Paulo

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Dra. Laura Coutinho Vassalli (CRM 137.362-SP) é médica, especialista em hematologia e clínica médica, com atuação em hematologia geral, oncohematologia e doenças mieloproliferativas crônicas, tema de sua pesquisa de doutorado em andamento na UNIFESP. Realiza atendimentos a adultos e adolescentes no seu consultório, localizado na Alameda Santos, 211, Cerqueira César, São Paulo.

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​Referências Bibliográficas​

 

AUERBACH, Michael; DELOUGHERY, Thomas G.; TIRNAUER, Jennifer S. Iron deficiency in adults: a review. Jama, v. 333, n. 20, p. 1813-1823, 2025.

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LATIMER, Kelly; BACI, Genta; LAYNE, Michael. Iron deficiency anemia: evaluation and management. American Family Physician, v. 112, n. 5, p. 538-545, 2025.

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SAFIRI, Saeid et al. Burden of anemia and its underlying causes in 204 countries and territories, 1990–2019: results from the Global Burden of Disease Study 2019. Journal of hematology & oncology, v. 14, n. 1, p. 185, 2021.

Perguntas frequentes

Laura Coutinho Vassalli - Médica - CRM 137.362 - SP

Clínica Médica [RQE: 51.461] e Hematologia e Hemoterapia [RQE: 51.462]

Alameda Santos, 211 - Cj. 1709 - Cerqueira Cesar - São Paulo - SP

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