

Hematologia em São Paulo - Dra. Laura Vassalli
Por Laura Vassalli
Atualizado em 22/09/2026
Alterações no hemograma, anemias, plaquetas altas ou baixas, tromboses e doenças da medula óssea podem ter causas muito diferentes entre si.
A hematologia é a especialidade médica dedicada a compreender essas alterações — desde situações frequentes e benignas até doenças mais complexas da medula óssea e do sistema hematológico.
O sangue funciona como um ecossistema
Gosto de pensar no sistema hematológico como uma floresta.
Em uma floresta saudável, diferentes espécies convivem em equilíbrio. Nenhuma existe isoladamente: o ambiente, os recursos disponíveis e a relação entre os diversos elementos determinam o funcionamento do conjunto.
Com o sangue acontece algo semelhante.
Glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas têm funções completamente diferentes, mas são produzidos a partir de uma mesma estrutura — a medula óssea — e precisam permanecer em equilíbrio entre si e com o restante do organismo.
Às vezes, uma determinada população de células diminui. Em outras situações, aumenta demais. Algumas células podem ser produzidas normalmente, mas não funcionar como deveriam. E existem ainda doenças em que uma população de células da medula adquire alterações próprias e começa a se multiplicar de maneira desregulada.
Por isso, um hemograma alterado é muitas vezes apenas a primeira pista.
O trabalho da hematologia é entender o que mudou nesse ecossistema e por quê.
Quando procurar um hematologista?
Muitas pessoas chegam ao hematologista depois que alguma alteração aparece inesperadamente em um exame de rotina. Outras são encaminhadas por outro médico ou procuram avaliação por sintomas persistentes ou histórico de trombose ou sangramento.
Algumas situações e patologias frequentes são:
Anemia
As hemácias, ou glóbulos vermelhos, carregam a hemoglobina, a proteína responsável por transportar oxigênio aos tecidos. É a esse grupo de células que a maior parte das consultas de hematologia se refere — geralmente por um de dois motivos opostos.
O mais comum é a queda: a anemia. Anemia não é uma doença única, e sim um achado — a redução da concentração de hemoglobina no sangue — que pode ter mecanismos muito diferentes entre si — deficiência de ferro, falta de vitamina B12 ou folato, doenças inflamatórias, alterações hereditárias da hemoglobina, destruição aumentada das hemácias ou doenças da própria medula. Por isso, tratar anemia significa primeiro entender sua causa. [Saiba mais sobre anemia, e os seus diferentes tipos, clicando aqui]
Deficiência de ferro
Dentro desse grupo, a deficiência de ferro merece atenção à parte: é extremamente frequente, pode existir com ou sem anemia, e o mais importante nem sempre é repor o ferro — mas entender por quê ele caiu, seja por perdas menstruais, sangramento gastrointestinal, alterações de absorção, cirurgia bariátrica ou outra causa. [Saiba mais sobre a anemia por deficiência de ferro, clicando aqui]
Hemoglobina ou hematócrito elevados
O motivo oposto — hemoglobina ou hematócrito persistentemente elevados — é mais raro, mas também traz pacientes ao consultório. Pode ser secundário a causas como tabagismo, apneia do sono ou uso de testosterona, ou fazer parte de uma doença clonal da medula: a policitemia vera. [Saiba mais sobre policitemia vera, clicando aqui]
Glóbulos brancos: defesa e imunidade
Os leucócitos participam da defesa do organismo e reúnem diferentes tipos de células, cada uma com uma função própria. Uma contagem alterada — para mais ou para menos — costuma ser transitória, associada a infecções, medicamentos ou características individuais.
O que diferencia uma alteração sem importância de uma que merece investigação é o padrão: qual população específica está afetada, a intensidade do desvio, há quanto tempo ele persiste, e se existem sintomas ou infecções associadas. É a alteração persistente e sem explicação evidente que levanta a hipótese de uma doença que se origina nessas células ou em seus precursores, como determinadas leucemias.
Plaquetas e coagulação
As plaquetas são fragmentos celulares produzidos na medula a partir de células chamadas megacariócitos, e trabalham junto aos fatores de coagulação para interromper sangramentos quando um vaso é lesionado. Alterações desse sistema podem aparecer de formas opostas: sangramento excessivo de um lado, maior predisposição à trombose do outro.
Plaquetas elevadas costumam ser uma resposta do organismo a outra condição — deficiência de ferro, inflamação, infecção ou cirurgia. Quando a elevação é persistente e sem explicação evidente, pode ser necessário investigar uma doença clonal da medula, como a trombocitemia essencial, que integra o grupo das doenças mieloproliferativas crônicas — o mesmo grupo ao qual pertence a policitemia vera, mencionada acima. [Conheça as doenças mieloproliferativas crônicas, clicando aqui]
Plaquetas reduzidas, por sua vez, podem decorrer de medicamentos, infecções, doenças imunológicas, alterações hepáticas ou doenças da própria medula.
Já a trombose é o outro lado dessa moeda: formar um coágulo é uma resposta normal a um sangramento, e o problema aparece quando um trombo se forma dentro de um vaso sem necessidade. A hematologia participa principalmente da investigação de tromboses recorrentes, em locais incomuns, em pessoas jovens, ou quando há suspeita de uma condição hematológica associada — podendo atuar em conjunto com outras especialidades, conforme o local e a causa.
Leucemias, linfomas e mieloma múltiplo
A onco-hematologia é a área da hematologia dedicada às doenças malignas do sangue, da medula óssea e do sistema linfático. Leucemias, linfomas e mieloma múltiplo são grupos de doenças bastante diferentes entre si, com formas próprias de diagnóstico, classificação e tratamento. A avaliação pode envolver exames de sangue, estudo da medula óssea, imunofenotipagem, exames moleculares e métodos de imagem, escolhidos conforme a suspeita clínica.
Hematologia benigna e onco-hematologia
A hematologia costuma ser dividida, de forma simplificada, entre hematologia benigna e onco-hematologia. Na primeira entram anemias, deficiências nutricionais, doenças hereditárias da hemoglobina, alterações de plaquetas e coagulação e investigação de tromboses; na segunda, leucemias, linfomas, mieloma múltiplo, síndromes mielodisplásicas e outras neoplasias hematológicas.
Na prática, essa divisão nem sempre é rígida — as doenças mieloproliferativas, por exemplo, são neoplasias clonais crônicas da medula, mas muitos pacientes permanecem estáveis por anos, com acompanhamento semelhante ao de outras condições hematológicas crônicas.
E vale reforçar algo que gera bastante dúvida: ser encaminhado a um hematologista não significa suspeita de doença grave. A maior parte dos pacientes acompanhados por essa especialidade tem doenças benignas — deficiência de ferro, alterações de vitaminas, plaquetas reduzidas, tromboses. Mesmo entre as doenças que se originam na medula, existem quadros crônicos com comportamento muito diferente das leucemias agudas.
Mais importante que o rótulo é entender como aquela doença se comporta e o que ela representa para quem a tem.
Como funciona uma investigação hematológica?
Uma consulta de hematologia começa antes de pedir novos exames.
1. Entender o contexto
O mesmo resultado laboratorial pode significar coisas muito diferentes dependendo da idade, dos sintomas, dos medicamentos utilizados, de outras doenças e da história familiar. Por isso, a primeira etapa é compreender por que aquele exame foi solicitado e o que aconteceu antes dele.
2. Comparar com exames anteriores
Um hemograma é uma fotografia. Uma sequência de hemogramas é um filme. Saber se uma alteração surgiu recentemente, está aumentando, diminuindo ou permanece praticamente igual há anos frequentemente fornece informações importantes para o diagnóstico.
3. Identificar o padrão
O hematologista avalia não apenas qual número está alterado, mas como as diferentes informações do hemograma se relacionam entre si. Uma hemoglobina baixa associada a VCM reduzido sugere caminhos diferentes de uma anemia com VCM elevado. Plaquetas altas acompanhadas de deficiência de ferro levantam hipóteses diferentes de uma trombocitose persistente associada a JAK2 positivo.
4. Escolher a investigação necessária
Não existe um "pacote de exames hematológicos" adequado para todas as pessoas. Dependendo do caso, podem ser necessários exames de vitaminas e ferro, marcadores de hemólise, testes de coagulação, imunofenotipagem, exames moleculares ou avaliação da medula óssea. O objetivo é solicitar os exames que realmente ajudam a responder à hipótese clínica.
5. Definir se existe necessidade de tratamento
Nem toda alteração exige tratamento imediato. Algumas precisam apenas ser acompanhadas; outras exigem tratar uma causa externa à medula; e existem situações em que é necessário iniciar um tratamento hematológico específico. A decisão depende do diagnóstico, da intensidade da alteração, dos sintomas e do risco associado àquela condição.
O sangue é um sistema — e o diagnóstico também precisa ser
Voltando à imagem da floresta: nenhuma árvore explica sozinha todo o ecossistema. Da mesma forma, um único número do hemograma raramente conta toda a história.
O objetivo da hematologia é reunir as diferentes pistas — sintomas, evolução dos exames, medicamentos, doenças associadas, características das células e, quando necessário, estudos da medula ou testes moleculares — para compreender o sistema como um todo. É a partir dessa compreensão que se torna possível decidir se uma alteração precisa ser tratada, acompanhada ou simplesmente observada.
Sobre a Dra. Laura Vassalli
A Dra. Laura Coutinho Vassalli é médica especialista em Hematologia e Hemoterapia e Clínica Médica.
Realizou formação (residência médica) em Clínica Médica e Hematologia e Hemoterapia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP).
Sua atuação inclui hematologia geral, investigação de alterações do hemograma, anemias, doenças da coagulação, onco-hematologia e doenças mieloproliferativas crônicas.
Atualmente desenvolve pesquisa de doutorado na área de doenças mieloproliferativas crônicas, pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
O atendimento é voltado a adultos e adolescentes e ocorre em consultório particular em São Paulo.
O consultório está localizado na Alameda Santos, 211 — Cerqueira César, próximo à Avenida Paulista.
Na primeira avaliação, é útil trazer os exames que motivaram a consulta e, quando disponíveis, exames anteriores. Comparar resultados ao longo do tempo frequentemente ajuda a compreender quando uma alteração começou e como ela está evoluindo.
Também é importante informar medicamentos e suplementos em uso e levar relatórios ou exames relacionados ao problema em investigação.
Dra. Laura Coutinho Vassalli
CRM-SP 137.362
Clínica Médica — RQE 51.461
Hematologia e Hemoterapia — RQE 51.462
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